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A cada dia mais mulheres viajam sozinhas, mas será que tudo são as “flores” compartilhadas nas redes sociais? E o outro lado de viajar sozinha? Será que as mulheres não sofrem violência psicológica, sexual e até física durante suas viagens? Se sim, quantas tiveram coragem de expor essa verdade, ainda tão velada? É muito importante evidenciarmos as partes boas de viajarmos sozinhas, mas é importante também, abrirmos nossos olhos para acontecimentos que nós mulheres estamos sujeitas, em qualquer lugar.

Fomos ensinadas, desde pequenas, a nos calarmos diante da opressão. Mas talvez, seja a hora de reavaliarmos esse conceito que só alimentam, por séculos, nossos medos. Por que não podemos andar ou viajar sozinhas? Por que devemos seguir instruções de como nos comportar, agradar, falar, vestir, maquiar, esconder, fingir… Seria para não mostrarmos a nossa fragilidade ou a nossa fortaleza?

Esses dias, através do blog, uma mulher me procurou para desabafar sobre um acontecimento muito forte durante sua viagem: ela havia sofrido uma tentativa de estupro. Fiquei pensando nessa história por vários dias. Pensei nela, nas outras mulheres e nas minhas viagens…

Quantas já viajaram sozinhas e não passaram por situações parecidas? Quantas apenas se calaram, guardando para si essa dor? Nunca passei por nada parecido mas, infelizmente, estamos expostas diariamente, simplesmente “porque nascemos mulheres”.

Vivemos em um mundo, fundamentado em valores e conceitos patriarcais de base machista, ainda muito enraizado pela sociedade. E o machismo não vem somente da parte dos homens, pelo contrário, muitas mulheres são machista — algumas vezes, mais do que os homens.

Por séculos, tentam nos controlar, subestimar, manipular, diminuir, mas no fundo será que esses opressores sentem o temor do nosso grito, da nossa voz e o poder das nossas atitudes?

A resposta para as mulheres que desejam viajar sozinhas é quase um mantra que se repete para as quatro direções: “Oooohhh, que coragem uma mulher viajando sozinha.”. Como se fosse a decisão mais arriscada de sua vida. Ao contrário do homem, que quando decide viajar sozinho, de forma independente, é visto quase como um semi-deus. Ele pode viajar pegando carona, sem nenhum dinheiro, aceitando ajuda de desconhecidos e será visto como ícone de inspiração. Se for mulher? É puta.

Indiferente da sua condição igualitária de ser viajante, independente do gênero, as mulheres sempre terão que enfrentar os olhares opressores. Então mulheres, que possamos nos fortalecer e enfrentarmos! Que sejamos fortes para desatar as amarras que nos foram colocadas desde quando nascemos mulheres. Os medos e as inseguranças são completamente normais, mas que eles não sejam obstáculos maiores que seus sonhos.

Se você é bonita e/ou chama atenção por seu estilo, é normal que as pessoas olhem, o que é belo deve ser apreciado. O que não é normal é um sujeito ficar te encarando como um produto exposto na vitrine. Você já se sentiu incomodada com o homem no trem te olhando sem parar? Com o cara te “roçando” no ônibus? Com o senhor no restaurante te assediando enquanto você jantava? Não abaixe a cabeça, não somos obrigadas!

Nós mulheres precisamos nos empoderar e trazer à tona as verdades não ditas, precisamos sim tomar consciência da opressão, das agressões e assédios, pois eles existem. Mas enquanto nos calarmos, não saberemos o que de fato acontece com as outras mulheres e, nunca conseguiremos mudar essa situação. Não faço esse chamado carregado de ódio, pelo contrário, é um movimento de muito amor que traz o acolhimento. Precisamos ter a capacidade de nos acolhermos na dor, sem julgamentos. Que possamos nos fortalecer e parar de nos culparmos por sermos mulheres.

Enquanto isso, a maioria ainda segue assistindo aos tutoriais que nos “ensinam” como devemos nos portar viajando sozinhas, ou como devemos fingir para nos mantermos seguras. Às vezes, penso que alguns desses vídeos e textos são o mais novo jeito de dizer para as meninas o quanto elas são frágeis e indefesas. Sinto lhe informar, mas não somos. Não quero viajar com uma aliança no dedo para “fazer de conta” que tenho um companheiro, me fazendo sentir mais segura ao andar sozinha. Não quero ter que colocar calças, se o que quero vestir são saias e shorts. Não quero tirar o batom vermelho se é ele que me faz sentir bonita. Não quero dançar de outra forma se é do meu jeito que sei dançar. Não quero ser podada por falsas verdades que me tiram o direito de ser livre.

Claro que existem situações que viajaremos sozinhas para locais com culturas diferentes, por exemplo, como alguns países no Oriente Médio, mas aí a regra de comportamento é válida tanto para homens e mulheres: devemos respeitar à cultura local.

E se te incomoda ver uma mulher viajando sozinha, não sinta pesar por isso, pois ela vive seus sonhos. É um julgamento errôneo que você faz. Você não sabe a força que ela traz!

Toda mulher que viaja sozinha tem coragem, independência, vontade de abraçar o desconhecido e sabe exatamente o que está fazendo. Com ou sem um parceiro, continuaremos viajando. Precisamos escrever nossos caminhos, viver nossas histórias, sentir liberdade e seguir nosso chamado ao mundo. Esse é um direito meu, seu e de todos!

Não deixe de viver, não deixe de viajar.

Esse texto foi escrito como uma grande colcha de retalhos, com palavras de outras mulheres, mescladas em um único texto. Afinal, a história de uma mulher é a história de todas as mulheres.

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22 Comentários

  1. Izabel Paiva
    23/08/2016 at 18:14 — Responder

    Que delícia de texto. Sou mulher, adoro viajar. É legal viajar com os amigos mas viajar sozinha me fez amadurecer muito.
    Grande abraço!

  2. Andreza Rodrigues
    18/05/2016 at 10:00 — Responder

    Gratidão Cris, um chamado para a alma. Adorei o texto.

  3. […] de leitura: O machismo nosso de cada viagem. Cris Marques discute como as mulheres estão viajando cada vez mais e como isso faz com que seja […]

  4. […] O machismo nosso de cada viagem – Dentro do Mochilão […]

  5. Fernanda
    25/12/2015 at 20:27 — Responder

    Uau, que texto!
    Cris, ano passado, com 21 anos, eu viajei sozinha por algumas cidades da Europa. Um dia um cara me parou na estação Termini, em Roma, e me convidou pra sair com ele. Eu disse que não e ele teve a cara de pau de me perguntar “por que não? você não gosta de fazer sexo?”
    E é por isso e muito mais que suas palavras caem perfeitamente. “Que sejamos fortes para desatar as amarras que nos foram colocadas desde quando nascemos mulheres. Os medos e as inseguranças são completamente normais, mas que eles não sejam obstáculos maiores que seus sonhos”

    Parabéns pelo blog

    • 26/12/2015 at 11:12 — Responder

      Oi Fernanda, precisamos nos fortalecer para caminhar… mas deixar de caminhar, jamais!

  6. 09/12/2015 at 14:17 — Responder

    Olá Cris!
    Bom dia!
    Como ta?

    Bela iniciativa a sua.
    Tem toda razão quanto ao machismo, principalmente na América do Sul que será o destino que faremos eu e minha namorada, amiga, sócia, parceira…
    Faremos mochilão partindo do Brasil, mais propriamente do Sul. Começaremos por Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Nicarágua e México. Faremos este roteiro visitando e conhecendo EcoVilas. Ao menos teremos uma a outra, porém, bem preocupadas com a questão do machismo/violência que há contra a mulher, mas, isso não nos desanima ou nos impedirá de seguir com os planos, pelo contrário, temos que quebrar esta barreira, afinal, temos que viver e seguir com a vida. Somos otimistas, acreditamos que não esbarraremos com esta questão, porém, não estamos livres, pois o machismo existe em todos os lugares, até mesmo nos inimagináveis, estamos preparadas. Esperamos que nas Ecovilas pela filosofia de vida seja mais velado este machismo/assédio, que seja menos assumido e declarado como em alguns lugares, estamos sendo bem otimista que não haja, afinal, acredito num mundo melhor, porém, “com o pé sempre na frente do coração” e me agarrando sempre a minha intuição feminina.
    Adorei sua matéria é de grande valia e um incentivo pra nós mulheres que sonhamos ganhar/conhecer o mundo com uma mochila nas costas, uma câmera na mão e brilho no olhar.
    “Vida longa e prospera!”
    Grande abraço!

    Alberta Barros

  7. Simone
    22/07/2015 at 22:34 — Responder

    Simplesmente perfeito…adorei seu texto e me identifiquei tanto. ..tenho namorado e vou viajar sozinha em outubro para Santiago. A prioridade de é outra…quer trocar de carro, mas eu sinto a necessidade de viajar!!!! Já fiz viagens nacionais sozinha e foi ótimo perceber que eu sou uma boa companhia pra mim mesma!!!! Está será minha primeira viagem internacional sozinha e é claro que dá um frio na barriga! E isso é delicioso! !!!

    • 06/09/2015 at 14:15 — Responder

      Olá Simone, esse frio na barriga é uma delícia! Aproveite essa viagem para se conectar com você mesma e observar os lugares no seu tempo. Com certeza será uma viagem linda!

  8. André
    30/06/2015 at 17:16 — Responder

    Oi Cris,
    Numa pesquisa que fiz há uns meses atrás, as mulheres que entrevistei demonstraram evidente preocupação sobre como os direitos da mulher são levados em conta num determinado destino. Até escrevi sobre isto neste post no Brasil com Z: blogbrasilcomz.com/2015/04/20/autores-convidados-o-que-e-importante-para-mulheres-decidirem-um-destino-de-viagem/

    Muitas vezes faltam informações precisas e quem foi vítima não se sente confortável em falar.

    • 20/07/2015 at 15:30 — Responder

      Olá André, adorei seu texto e sua pesquisa. Essa questão da segurança da mulher viajante é muito pouco discutido.
      Grande abraço!

  9. 30/06/2015 at 13:23 — Responder

    Parabéns Cris. Precisamos mesmo desse empoderamento. Não só nas viagens, mas em todas as circunstâncias. Bjos!

    • 30/06/2015 at 16:14 — Responder

      Precisamos, urgentemente… Grata pela visita!

      Beijo grande

  10. Carolina Fragoso
    26/06/2015 at 15:37 — Responder

    Olá, Cris. Adorei o seu texto, também acredito que ao reconhecermos a existência do machismo e do patriarcalismo podemos nos fortalecer de forma a combater o preconceito. Viajar sozinha foi uma das experiências mais incríveis da minha vida e, eu desejo que todos possam viver essa experiência, independente de seu gênero, de sua condição social, de sua origem…
    Já virei fã do blog.
    Beijos

    • 27/06/2015 at 10:36 — Responder

      Oi Carolina, é exatamente isso que penso. Fico feliz que tenha gostado do blog, seja bem vinda sempre!

      Beijo grande

  11. Gabriela
    25/06/2015 at 23:35 — Responder

    Cris!!! Você é a melhor <3 To apaixonada pelo texto, um dos poucos textos feministas que mostra todo nosso lado sem querer ser maior que os homens; e sim iguais, ter os mesmos direitos. Continue essa pessoa maravilhosa que voce é!!!!

  12. 25/06/2015 at 14:40 — Responder

    Adorei o texto!

    • 25/06/2015 at 14:54 — Responder

      Olá Bia, para dar uma mexida no óbvio e falar dos espinhos da rosa. hehe

      Beijos!

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