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Quando eu decidi viajar sozinha pelo mundo, quis me planejar para passar pelo menos seis meses fora do Brasil. Mas eu já sabia, desde o começo, que o meu roteiro não seria traçado por nenhum site ou agência de viagens. Não seria traçado nem por dicas de amigos. Eu teria que descobrir como fazer para conciliar a vontade de conhecer vários lugares, com um orçamento enxuto, enquanto ainda tentava ganhar a vida como jornalista freelancer. Parece um malabarismo muito doido e impossível, né? Mas, na verdade, foi a melhor decisão que eu tomei. Por indicação de amigos, descobri sites como o Workaway e o Worldpackers, plataformas que permitem que você encontre hostels, famílias, escolas e organizações que buscam pessoas dispostas a levar suas competências para diversas áreas do planeta em troca de hospedagem e, frequentemente, pelo menos uma refeição ao dia.

Cada um funciona de um jeito: o Workaway cobra uma taxa anual de US$29,00 por pessoa ou US$38,00 por casal. Já o Worldpackers cobra entre US$20,00 e US$50,00 por viagem confirmada através do site. Vale estudar para saber qual é a melhor opção. No meu caso, fui atraída pelo Worldpackers por ser um site com layout mais agradável, mas no fim das contas, em 14 meses de viagem, quem me ajudou muito foi o Workaway. E fiz de tudo: pintei paredes em uma vila vizinha a Budapeste, fiz camas de hostel na Albânia, dei aulas de inglês no Marrocos, levei cachorro para passear na Sérvia… foram trabalhos que me exigiram, em média, 4 a 6 horas por dia durante no máximo, cinco dias por semana. Acredito que aprendi coisas que não teriam sido possíveis se eu tivesse passado por esses lugares apenas por alguns dias, só para tirar algumas fotos bonitas.

Aqui vão meus principais aprendizados, que passo adiante para você que quer viajar e está considerando o voluntariado como uma forma de conhecer novos destinos:

  • Você vai economizar (bastante) dinheiro

Boa parte dos nossos gastos de viagem se resumem à acomodação. Aquela diária de hostel pode até ser barata, mas se você somar com todos os dias que pagou por uma cama em cada lugar para onde viajou, vai perceber que é o dinheiro mais fácil de escorrer pelo ralo. E pior: é algo que a gente nem justifica ou questiona. Simplesmente pensa que é assim mesmo e que não há outra possibilidade. Mas há: o voluntariado te permite economizar essa grana e gastar com coisas mais legais, desde um prato de comida mais elaborado até uma viagem futura, que pode ter o orçamento menos apertado graças à sua decisão de não pagar por hospedagem.

Mais do que isso, não colocar dinheiro nessa troca ressignifica os papéis e pedaços de metal que você guarda na carteira, é muito impressionante perceber quão pouco eles importam nessas horas.

  • Você vai descobrir que é resiliente

Não existe orgulho quando se é voluntário: você vai arrumar camas que não são suas, vai se sujar com construções cujo resultado você não irá aproveitar, vai fazer inúmeros check-ins em hostels com pessoas mal-humoradas, que acham que você deve servi-las e tratá-las com requinte. Pois bem: o choque de realidade que vem com essa experiência tira de você aquela impressão de que você é muito especial; que a sua viagem é uma grande jornada poética. Ela não é. Você não é mais especial do que ninguém. E por mais que você não deva ser servente de ninguém, vai perceber que lidar com diferentes pessoas e mundos todos os dias é a verdadeira descoberta do seu dia a dia: é o que, de fato, vai te fazer crescer e amadurecer.

  • Você vai aprender a cuidar de si

Lembra das pessoas que acham que você deve servi-las? Isso também pode acontecer com lugares que recebem voluntários. No primeiro hostel para onde fui, a dona do local, com quem havia acordado quatro horas de trabalho diárias, estipulou que eu ficasse o dia inteiro trabalhando. Eu tinha duas opções: abaixar a cabeça e obedecer ou usar a revolta que senti para me empoderar. Escolhi a segunda opção, morrendo de medo de estar fazendo besteira, já que estava sozinha em uma cidade desconhecida. Mas me neguei a violar o acordo que havia sido feito por meio do site onde havia me cadastrado para a viagem. Ela reclamou, eu reclamei mais alto. No dia seguinte, fechei minha mala e fui embora. Nunca me arrependi, justamente porque foi naquele momento que percebi que era dona de mim.

  • Você vai criar uma rotina

A maioria dos lugares que procuram voluntários pedem pelo menos algumas semanas de dedicação em troca de hospedagem. Isso é maravilhoso! Primeiro porque quebra aquele ritmo afobado de viagem, que faz a gente achar que precisa ir para o maior número de lugares na menor quantidade de tempo. Segundo porque te ensina, de fato, a viver como local: você aprende a pegar o ônibus, descobre onde fica a melhor padaria, o mercadinho mais em conta. Quando estava no Marrocos, chegou uma hora que estava tão adaptada ao dia a dia que até saía para correr, mesmo com tantos amigos brasileiros tendo me falado que era um lugar com muito assédio de rua e que poderia ser perigoso. Esse sentimento vai embora depois de um tempo, e você percebe que a vida está acontecendo normalmente, como aconteceria no bairro da sua casa.

  • Você vai ter maior sensação de pertencimento

É quando se cria uma rotina que a coisa mais legal do mundo acontece: você passa a fazer parte do lugar. Começa a dar bom dia para as mesmas pessoas que sempre cruzam o seu caminho; o padeiro já sabe o que você vai comprar; você já pega um ônibus diferente porque sabe que ele corta caminho; descobre um novo prato preferido sem ajuda; apresenta, aos turistas, lugares que só cidadãos locais conhecem (mas que você já visitou também). É como se mudar para uma nova vizinhança na sua cidade, mas multiplicado por mil. E como é possível que você esteja viajando só, você nem tem amigos ou conhecidos para encontrar com facilidade: é preciso se adaptar — e essa é a parte mais gratificante de toda a experiência. 🙂

  • Você vai valorizar mais o mundo à sua volta

Sentir-se necessário em qualquer lugar do mundo, seja para varrer um chão ou conversar em inglês com alguém que quer aprender o idioma, ajuda-nos a entender que a vida está acontecendo a todo minuto, em todo o planeta. Tem sempre alguém precisando de ajuda e alguém pronto para oferecê-la. As trocas que acontecem entre pessoas durante um trabalho voluntário são, nesse caso, muito mais do que um estilo de viagem. É uma forma nova de entender o outro: o lugar onde ele nasceu, cresceu, os valores que fazem parte de sua vida… Permitir-se mergulhar em um novo lugar do mundo por uma quantidade razoável de tempo é como plantar uma semente dentro de nós mesmos. Quando ela germinar, nós estaremos renovados, mudados, rendendo frutos que nunca imaginaríamos cultivar. 🙂

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8 Comentários

  1. Izadora
    04/09/2017 at 15:22 — Responder

    Rafa, conheci você no primeiro encontro Mulheres Viajantes e adorei ler o seu texto, sucesso!!! <3

  2. Lou Martins
    09/08/2017 at 16:06 — Responder

    Parabéns pelo texto e obrigada por compartilhar a experiência! Vou em outubro viver minha primeira experiência pelo Worldpackers e confesso que estou com frio na barriga, apesar de super empolgada. Pena que vai ser só uma semaninha. Vou ver no Workaway, que não conhecia, para encontrar outros hostels.

    • 10/08/2017 at 22:38 — Responder

      Olá Lou, com certeza será uma experiência incrível! Quando voltar venha aqui e compartilhe conosco sua experiência. 😀

  3. 30/01/2017 at 16:02 — Responder

    Parabéns Rafaela por sua coragem de vivenciar está experiência. Acho que fica como lição de vida.
    Já viajei muito ficando em Hostal com muitas pessoas estranhas no mesmo quarto, que tb foi uma grande experiência.
    um abraço
    Jussara

    • 30/01/2017 at 18:16 — Responder

      Pois é, Jussara! Interagir com pessoas de diferentes lugares é, pra mim, sempre a parte mais enriquecedora de viajar. 🙂 Obrigada pelo comentário!

  4. Gustavo Woltmann
    25/01/2017 at 21:47 — Responder

    Já ouvi falar sobre esse tipo de viagem e parece ser bem econômico e agregador, interessante!

    • 26/01/2017 at 11:17 — Responder

      Agregador é uma palavra muito boa pra definir, Gustavo! Sabe quando você percebe que aprende lições que nunca teriam feito parte da sua vida se você não tivesse se proposto a viver aquelas coisas? É bem por aí. 🙂 Obrigada pelo comentário!

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