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Quem viu minha bagagem despachada pesando 16 quilos quando cheguei ao aeroporto não acreditaria que ela teria tudo de que eu precisava para viajar sozinha por um ano. E quer saber mais? Mesmo estando leve daquele jeito, ela estava repleta de coisas que eu nunca usaria.

Eu sempre fui uma acumuladora. Fui a pessoa que enlouqueci minha mãe durante a minha infância e adolescência porque queria ter coleções de chaveiros, bolinhas de gude, panfletos, ingressos de show, anotações e textos dos tempos de escola e faculdade… por anos, fui a rainha do “mas isso ainda vai ser útil para mim algum dia.”

(Spoiler: não, não seria útil.)

Mas minha decisão de viajar também era uma decisão por desprendimento. Eu precisava aceitar que minha vida inteira, do jeito que ela era, não caberia em uma mala. Então, embarcar para longe era uma forma de me soltar de tudo que eu já conhecia e que eu sentia que poderia me impor amarras — e isso vai desde aquela coleção de chaveiros até o acúmulo dos desentendimentos familiares, por exemplo. Eu queria que viajar funcionasse como, por falta de melhor expressão, uma esfoliação emocional. Queria me livrar de tudo aquilo que fazia eu me sentir pesada e grudada dentro de circunstâncias que eu não queria aceitar. Por isso, deixei meus cacarecos todos em caixas. Enfiei tudo em um armário. Respirei fundo, passei o zíper na minha mala cheia de roupas neutras, minha câmera, meus cadernos, alguns remédios, documentos, cartões e dinheiro e só. Embarquei.

O peso maior estava no meio receio. Eu tinha certeza de que estava abrindo mão de objetos fundamentais. Aquela caneta que eu uso para um tipo de anotação específica; aquele chaveiro que também é abridor de garrafa; aquele cachecol estampado que eu jurava que estava esperando só uma ocasião especial como aquela viagem para ser usado… aqui vai um exemplo de como foi difícil largar as minhas coisas: eu, que sou jornalista, achei uma grande vitória viajar com apenas cinco bloquinhos de anotação, cada um com um objetivo. E, junto com eles, é claro, apenas dez canetas.

Mas deu pra perceber muito rápido como eu precisava de pouco para viver. Eu sequer abri dois dos cinco bloquinhos. Eu não usei mais do que duas canetas (e olha só, Rafaela, o outro lado do mundo também vende canetas boas! Não é incrível?). Eu não precisava de um terceiro vestido porque o primeiro não desbotou e o segundo não rasgou como eu tinha imaginado. Eu não precisava de mais de um par de botas. Por que eu achava que precisava de tantas coisas?

Eu percebi que estava me prendendo àquilo que eu achava que tinha me tornado quem eu sou. Percebi que estava apegada a momentos do meu passado e que todos os objetos que eu tinha eram uma forma de reacessá-lo com um sentimento doce de nostalgia. O terceiro vestido, que sequer desdobrei até voltar para o Brasil, era um presente de uma amiga de quem eu sentia saudade; o quarto e quinto bloquinhos me lembravam de quando entrei na faculdade aos 19 anos; as canetas que levei eram as mesmas que eu usava para trabalhar quando tinha um emprego fixo. Foi só percebendo o histórico dos objetos que carreguei que notei o quanto eles representavam uma prisão de que eu teria que me libertar se quisesse fazer a tal da esfoliação emocional de verdade.

Então, decidi me forçar a encontrar valor em todas as coisas que estavam comigo. A observá-las questionando se elas eram importantes de fato. Desapeguei de vários objetos pelo caminho. E, ao voltar pra casa, mal podia esperar para fazer o mesmo com tudo que eu havia deixado em inúmeras caixas de papelão.

Voltei para o Brasil só com objetos que eram importantes para mim. Abri mão de lembrancinhas e decidi que, para me lembrar dos momentos e lugares, pediria para meus amigos assinarem uma bandeira do Brasil que eu carregava comigo (e que voltou lindamente autografada!). E quando aluguei um apartamento em São Paulo, vi a mudança como oportunidade para ficar só com o essencial. Em questão de poucas horas, tudo que me pertencia já estava na casa nova. Só permiti que os objetos que têm muito valor emocional sobrevivessem sob minha posse e continuassem me acompanhando nesse passo novo. Dei adeus às bolinhas de gude, aos chaveiros, aos papeis de faculdade e escola, ao teclado que ganhei quando fazia aula de música na infância e que ficou mais de 15 anos comigo. Vendi minha bicicleta porque descobri durante minha viagem que prefiro caminhar.

Na hora de comprar uma mesa, um sofá ou um conjunto de panelas, agora, tenho certeza de que estou fazendo aquilo porque preciso. E porque nada disso é capaz de me prender mais do que é capaz de atender uma necessidade. Mas nunca se sabe, não é? Num dia qualquer, pode ser que as prioridades mudem, eu decida só comer comidas cruas e abra mão de cozinhar. E tudo bem. O mais importante é saber da importância de todos os seus pertences em cada momento da sua vida. Se você só ficar com o que precisa, a vida fica não só mais enxuta como, também, mais leve.

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6 Comentários

  1. Angélica
    06/07/2017 at 22:16 — Responder

    Cris, leio muito sobre minimalismo e amei seu artigo. Obrigada por compartilhar conosco! Estou nesse mesmo caminho… só fica na minha vida e só entra, o estremamente necessário. #menosémais

    • 17/09/2017 at 11:38 — Responder

      Oi Angélica, eu também sou desse movimento menos é mais. Pra quê ter coisas se podemos acumular experiências?

  2. 05/06/2017 at 19:41 — Responder

    Adorei esse texto <3 Quero muito viajar com pouca bagagem e estou procurando muitos posts sobre isso.

    Beijos!

    • 11/06/2017 at 18:49 — Responder

      Já me segue pelo instagram? Por lá dou muitas dicas de como viajar mais leve -> @raizesdomundo.

  3. Rafaela
    12/03/2017 at 15:11 — Responder

    Me identifiquei com cada palavra. Estou lendo esse texto no meu quarto, que de longe é onde carrego mais memórias. Olhei ao redor e nossa, que vontade de limpar tudo e me libertar de tanta coisa. Amo o seu blog e o modo de vida, Cris. ❤️

    • 02/04/2017 at 23:48 — Responder

      Liberte-se!!!! (e depois venha aqui me contar como foi. hehe)
      ❤️ ❤️

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