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A experiência mais legal que vivi sozinha na minha vida, até hoje, foi pegar o dinheiro levei seis anos para juntar e viajar por 14 meses pra vários cantos do mundo. Do Coliseu romano até os bunkers da Albânia, testemunhei um monte de coisas na minha frente. Me joguei no mundo tentando trocar o medo por animação e curiosidade, pronta pra ser lapidada pelas novas circunstâncias de que eu me cercaria. Demais, né? Mas chegou uma hora que tudo que eu queria era voltar para casa.

Não é só a saudade do arroz com feijão ou da farofa de ovo. Não é só a vontade de abraçar os amigos que eu havia deixado aqui. Depois de um tempo absorvendo tanta novidade, fica muito fácil de perceber como você sempre é, inevitavelmente, o estranho dos lugares onde pisa. A sensação de pertencimento nunca é completa quando você não está cercado do mundo que sempre tomou como seu e do qual você se desprendeu por um tempo. Você é estrangeiro por definição.

Não é uma sensação que começa azedar, não. Ela é sempre incrível, e um aprendizado inenarrável. Mas nós, humanos, somos seres que precisamos do outro para viver. Precisamos ter em quem confiar, precisamos ser sociais. E quando você chega no próximo lugar onde dá as mesmas respostas para as mesmas perguntas vindas de tanta gente diferente, cansa. Chega uma hora que a gente só quer pertencer de novo a um lugar, fazer parte da vida dele sem precisar se apresentar ou dar satisfação. E o lugar não precisa ser o nosso país ou a nossa cidade. O lugar é a sensação de lar que decidimos abandonar, que pode ir desde o idioma nativo até o motorista do ônibus que já te conhece e te cumprimenta todas as manhãs. Isso faz falta. Quando se viaja sozinho, então…

Quando voltei para São Paulo, em outubro de 2016, uma das perguntas que mais ouvi foi: “E aí, quando é a próxima viagem?” — algo que eu sinceramente não tenho a menor ideia de como responder. Claro que há sonhos e listas inesgotáveis. Mas tudo que eu conseguia dizer era: “Agora eu só quero voltar a pertencer a um lugar” — alugar um apartamentinho, continuar minha vida de jornalista freelancer da minha cidade natal por pelo menos um ano ou dois. E aí reconstruir o sonho: juntar dinheiro outra vez, fazer novas pesquisas e, quem sabe, embarcar em uma nova aventura no futuro. Mas isso precisa acontecer só quando eu estiver disposta a me soltar das minhas raízes e justificar minha presença em cada novo destino.

Por causa da idealização e glamurização que existe em torno da ideia de viajar para tantos lugares, a gente acaba se esquecendo do óbvio: voltar para casa — e permanecer nela pelo tempo que for necessário — é importante. Viver o desconforto da readaptação é engrandecedor. Dividir histórias dos mundos que você conheceu, mas valorizar quem sempre esteve aqui te esperando é fundamental. Dar um abraço na minha avó septuagenária de quem senti saudade é prioridade. Pagar aluguel, fazer faxina e aprender a cuidar de um espaço inteiramente meu é crescimento. Comprar passagens para o outro lado do mundo é tão construtivo quanto aprender a desentupir sua própria privada quando o assunto é cuidar da própria vida e se tornar uma pessoa melhor. Por mais que não renda uma foto linda nas suas redes sociais, é parte do que você é de quem você está se transformando. É pertencimento e amadurecimento, com o bônus de estar dentro de um mundo quem sempre estará de braços abertos, esperando sua volta. E às vezes, isso é tudo de que a gente precisa. 🙂

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4 Comentários

  1. 18/03/2017 at 21:38 — Responder

    Parabéns pelo texto, casa é casa. “E às vezes, isso é tudo de que a gente precisa”… muito bom! 🙂

    • 02/04/2017 at 23:47 — Responder

      Até eu que não tenho uma casa física sinto essa necessidade. Depois de uma temporada de viagens sempre preciso de um tempo com “os meus” em Brasília.

  2. 10/03/2017 at 11:40 — Responder

    Que texto lindo, adorei. Eu adoro viajar, mas gosto tanto de voltar para casa. A casa é onde eu sou o que sou, nas viagens é onde eu posso ser outras coisas, e acho muito interessante alternar esses vários Eus que vivem em mim.

    • 02/04/2017 at 23:53 — Responder

      “Os Eus que vivem em mim saúda os Eus que há em ti.” Até eu que não tenho casa gosto de voltar para meu lar, que é Brasília. Nada como os lugares comuns que também nos fazem tão bem. Para cada temporada viajando preciso de outra temporada com minha família do cerrado. O problema é que as temporadas lá estão sendo maiores que na estrada… estou ficando apegada demais! haha Beijos, amore.

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