Minha experiência como voluntária com reabilitação de animais silvestres

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Trabalhei no Parque Machia, localizado na Vila Tunari, município de Cochabamba, na Bolívia. Essa foi uma experiência voluntária que me trouxe aprendizado e conhecimento consideráveis.

Comuninad Inti Wara Yassi

A Comuninad Inti Wara Yassi trabalha com reabilitação de animais silvestres de várias espécies. Além do Parque Machia, existem mais dois centros: Cuisi Jacj em La Paz e Ari Ambue em Santa Cruz. O local se mantêm financeiramente por meio doações e com as taxas de estadia paga pelos voluntários. Todo dinheiro é revertido para alimentação, medicamentos e manutenção.

Experiência Voluntária

Cercado por uma floresta nativa, o Parque Machia tem infraestrutura muito simples. Todos os animais são divididos por setores e subdivididos de acordo com a gravidade de danos físicos, espécie e tamanho. Os de porte maior e mais agressivos, como tigre, urso e algumas espécies de macacos, ficam mais afastados.

Por questões de segurança o voluntário não pode ir além da sua área de trabalho sem autorização. Cada animal tem seu tempo de adaptação com o voluntário e alguns pode ser bastantes agressivos ao sentir o cheiro de outro animal impregnado na roupa de uma pessoa. Por isso, sempre é recomendado trocar de roupa, antes de manusear outra espécie. A minha rotina de trabalho era de segunda a segunda, com um dia de folga a cada duas semanas, das 7h às 18h. Faça chuva ou faça sol.

O indicador de que os animais estão aptos a voltar para selva é quando apresentam boa saúde e começam a defender seu território. Assim, poderão caçar e se defender. Após receber alta do veterinário, esses animais são reintegrados à natureza. Infelizmente, essa não é a realidade de todos. Alguns deles foram retirados do habitat natural ainda bebês e criados como animais domésticos. Por isso, a reabilitação é bem lenta e às vezes, para alguns, nem acontece.

Minha rotina

Trabalhava com uma chilena, também voluntária, é éramos responsáveis por 28 quatis em quarentena, 2 lontras e várias tartarugas. A maioria deles, muito debilitados em função de maus tratos de seus antigos donos. Os animais seguiam uma dieta cuidadosamente preparada para recuperação e a rotina de cuidados deve ser comprida à risca, todos os dias – e sem atrasos.

7h30 – O trabalho começava com higienizarão dos pratos e de todas as comidas. Café da manhã: frutas e vitamina. Depois de alimentados, retirava os quatis, um a um, e os deixamos “soltos” na selva. Os animais ficavam presos por uma corda grande onde se movimentavam na selva, dando a eles uma sensação de “liberdade”. Cada animal tem um lugar pré-determinado na mata e essa é uma forma de reconecta-los com a natureza.

Mapa com o nome e a área de cada animal.

Após deixa-los em suas áreas, voltava para o local de quarentena para limpar as jaulas: retirar as fezes e lavar e higienizar. Trocava os panos onde eles dormiam e separava para lava-los mais tarde. Essa tarefa acabava por volta das 10h e só depois disso saía para tomar meu café.

11h30 – Preparava o almoço dos animais e levava para as áreas onde estavam localizadas na selva.

12h30 – Hora do almoço dos funcionários e veterinários.

14h – Recolhia os pratos do almoço dos animais. Voltava na selva e saia para “passear” com os quatis. Após essa tarefa, lavava os panos sujos e os pratos dos mesmos. Nesse intervalo, ainda cuidava das lontras e das tartarugas.

Passeando com dois quatis.

17h – Preparava a última refeição, e de novo, levava as comidas em cada ponto na mata.

17h30 – Passava recolhendo os pratos. Voltava para as jaulas e colocava as mantas limpas. Voltava para selva e pegava os quatis — um por um—, e os levava de volta para a jaula. Acomodados em suas jaulas eram medicados, sob supervisão veterinária.

Jaulas com os nomes de cada animal.

18h – Cobria as jaulas com uma lona e depois lavava as tigelas da janta.

experiência voluntária

Por fim, estávamos sujos, fedendo, cansados, suados, com alguns arranhões extras e várias picadas de insetos. A ida e vinda na selva era bem cansativa e o trabalho como podem perceber, bem repetitivo. Imagina fazer a mesma coisa por 15, 20, 30 dias? Se foi fácil? Não foi. Tinha dias que acordava querendo ir embora. Quando o despertador tocava as 6h da manhã, meu corpo doído pedia para não levantar e desistir de tudo!

Mas todas as vezes que pensei em parar — e confesso, não foram poucas — levantava movida por uma força inexplicável do amor incondicional. E ao chegar perto das jaulas e ser reconhecida pelo animal, eu apenas agradecia por mais um dia ali. Na chuva ou no sol escaldante, todos os dias, no final do dia eu me sentia grata por poder viver esses momentos de dor e amor.

O ensinamento…

Cada animal tinha uma rotina própria. O urso nadava toda semana, o tigre precisava correr todos os dias, os quatis necessitavam sair para selva no final da tarde… O trabalho era repetitivo e nem todos estão aptos a realizar. Para ajudar esses animais doamos o que temos de mais precioso: o nosso tempo. A partir do momento que você assume ser voluntário seu tempo passa a ser para o outro. Sobretudo, com animais em reabilitação. A recompensa de tanto esforço é ver a recuperação dos animais. A dureza e agressão deles é resultado de um passado violento, que aos poucos, vai se transformando em leveza e confiança. É a possibilidade de dar para o outro ser a oportunidade de viver dignamente com mais qualidade de vida. De trazer afeto, atenção e cuidado que um dia lhes foram roubados violentamente. É a certeza que de alguma forma eu pude contribuir positivamente para a vida do outro, é sem dúvida a maior das curas. ♡

Experiência Voluntária na Bolívia
Experiência Voluntária na Bolívia


Experiência voluntária e as minhas impressões

Alojamento dos voluntários
parque-machia-volunturismo-22
Jantares comunitários em experiência voluntária
Hora de descanso durante a tarde

(Re)pense a sua forma de viajar.

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Essa viagem foi realizada em 2010 e o manejo dos animais pode ter mudado. Caso visite o local e encontre qualquer irregularidade nos avise, por gentileza. Antes de realizar qualquer tipo de experiência voluntária pesquise e busque referências de quem já foi.

10 COMENTÁRIOS

  1. Cris tudo bem!
    Gostaria de saber se você tem face,pois gostaria de ter uma conversa mais profunda com você sobre o trabalho voluntario na Bolívia. Pretendo ir em dezembro e gostaria de tirar algumas dúvidas com você.
    Desde já te agradeço muito.
    Abraços
    Poliana Lara

  2. Cris, tudo bem?
    Faz dois anos que eu fui pra Bolivia e conheci uma chilena que fez trabalho voluntário lá e ela também amou. Estava agora pesquisando sobre o voluntariado lá e vi que tem alguns custos. Você tem pagar de acordo com o tempo que você quer ficar e diz que os custos são pra moradia e alimentação. É isso mesmo? Você teve que pagar também?
    Obrigada (:

  3. Oi Cris!
    tudo bem?
    Que máximo seu relato. já o tinha lido pelo mochileiros e sempre acabo nele novamente, rs. Em setembro estarei viajando por 30 dias, passando pelo Chile, Atacama, La Paz, Copacabana e finalizando com muito amor neste trabalho voluntário com os animais. Li alguns relatos de que os voluntários são bem mal tratados e é que comum algumas pessoas nem olharem na cara dos voluntários. Queria saber de você, que ficou um tempinho por lá.. Como foi neste aspecto?

    Não estou indo esperando agradecimentos, mas educação é o mínimo que esperamos nos locais por onde passamos, né!
    Um abraço, 🙂

    • Olá Juliana,

      Concordo com você, educação é o mínimo! Ainda mais se tratando de algo que envolve um trabalho de total doação. Fui em 2010 e não vivi isso. Pelo contrário, minha relação com todos foi tão boa que até hoje mantenho contato com alguns voluntários. Mas fiquei com uma dúvida: esse problema vem do pessoal da coordenação ou entre os voluntários? Que estranho… Infelizmente nem posso te dar muito referência pois em 4 anos, de fato, muita coisa pode ter mudado. Porém, os relatos tb devem ser analisados com cuidado, já que cada pessoa têm diferentes sensações e impressões dos locais. Mas se você leu mais de um relato, de pessoas diferentes, é bom ficar de olho ou até mesmo procurar outra instituição. No entanto, sou da teoria: mais do que somente ler, é viver. rsrs Caso finalize sua viagem no Parque Machia não deixe de compartilhar comigo suas impressões, fiquei curiosa. Seu relato atualizado iria agregar muito e ajudar outros viajantes. Se quiser escrever um texto, posso publica-lo aqui no blog e te coloco como autora convidada. É muito importante ter informações atualizadas desse tipo de coisa. Grata por compartilhar essa outra realidade.

      Grande abraço!

  4. Achei demais sua experiência! Sou concluinte de biologia e fiz estágio com manejo de fauna silvestre. Estou buscando opções de viagens que ofereçam contato com a natureza, especialmente, animais selvagens, seja com monitoramento, reabilitação, manejo… Sonho ser voluntária, mas vejo que muitos lugares limitam o acesso de interessados com mais de 30 anos (este é o meu caso). Uma pena, pois vontade, compromisso, disposição e paixão não tem idade… Não é mesmo? :*

    • Olá Viviane, geralmente quem limita a “idade ideal” são as agências de intercâmbio, principalmente pensando no voluntariado como pacote para estudantes universitários. No entanto, se for procurar por conta própria, vai perceber que o interesse maior de muitas instituições é saber no que você pode ajudar, independente da sua idade. 😉

      • Oi Cris. Depois de ler o seu relato resolvi procurar por conta própria, enviei e’mails diretamente para algumas instituições e já recebi um retorno positivo. Pretendo viajar em meados de set./out. deste ano, então, volto para contar quando, onde e como tudo aconteceu. Valeu!

        • Oi Viviane, que ótima notícia! Quando voltar compartilhe conosco sua vivência. E se quiser, já está convidada para escrever um post sobre sua viagem aqui no blog. Te desejo boas experiências, novas amigos, muitos abraços e muita saúde para trabalhar. Que essa viagem te inspire!!!

          Grande abraço.

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