Tudo sobre o Festival de Parintins – a maior festa folclórica do Brasil

14
1791

A cerca de 300 km de Manaus encontra-se a ilha de Parintins, cidade azul e vermelha dos bois-bumbás, palco do maior Festival de Parintins, o maior folclórico do Brasil, que acontece todos os anos no último final de semana de junho.

Festival de Parintins

A origem do nome da cidade vem dos antigos habitantes da ilha, os índios parintins ou parintintins. Parinrintin era uma tribo guerreira originária do Rio Madeira.

Apesar da grandeza de seu festival, a cidade é bem simples. Em uma curta caminhada é fácil identificar os hábitos e o modo de vida parintinense. Uma dica é acordar bem cedo e tomar o típico café da manhã no Mercado Municipal. E acordar cedo significa às 4h30 da manhã, pois o sol costuma aparecer por volta das 5h.

Em relação ao horário de Brasília, hora oficial do Brasil, a diferença é de 1 hora a menos no estado do Amazonas. Nos meses de outubro a fevereiro, não é aplicado o horário de verão. Portanto, a diferença aumenta para duas horas.

Festival de Parintins
Comparando com Manaus, o preço do artesanato em Parintins é bem mais barato. No Mercado Municipal têm algumas opções de peças feitas com palha, raiz de árvores, madeiras, sementes, cipós e penas. Vale a pena!

A cidade de duas cores: azul e vermelho

Não tão marcante como os tempos de outrora, a disputa entre os dois lados ainda existe e divide Parintins. Do lado oeste da cidade é predominante do Boi Garantido e do lado leste do Boi Caprichoso. Nessas regiões encontra-se o curral (local dos ensaios) e o seus QGs (galpões para confecção das fantasias) de cada boi.

Uma das peculiaridades de Parintins é a “rixa” entre os bois, que faz da cidade uma combinação de cores entre azul e vermelho. Até a Coca-Cola entrou na brincadeira e em 2008 criou uma latinha toda azul, após perceber que os torcedores do Boi Caprichoso (azul) não compravam o refrigerante pois tinha a cor do rival. Essa latinha é a única vendida no mundo. A rivalidade também está nas ruas. Várias fachadas das casas são pintadas da cor do boi de paixão e nem a faixa de sinalização de pedestre escapa! É da cor do bumbá predominante no bairro.  

Festival de Parintins

  • Se estiver em Parintins fora dos dias do Festival, não deixe de conhecer os currais dos bois. O curral é o local de ensaio, apresentações e confecção dos bois. É uma maneira de ver de perto como são os preparativos para o festival e entender um pouco mais o festival.

A História do Festival de Parintins

Um boi que dança, morre e ressuscita, velho conhecido de brincantes pelo Brasil e desconhecido por muitos.  Boi-pintadinho’ no Rio de Janeiro, Bumba-meu-boi’ no Maranhão, ‘Bumba-de-reis’ no Espírito Santo, Boi-calemba’ no Rio Grande do Norte, ‘Boi-de-mamão em Santa Catarina e assim vai… Vários nomes e a mesma brincadeira — expressão para os folguedos brasileiros. O boi-bumbá do Amazonas traz elementos da mata que mescla histórias de caboclos e índios.

Os grupos de bois no Amazonas começaram a surgir nas ruas com forte presença de brincantes e tiradores de versos oriundos de classes mais pobres da comunidade. No entanto, agradavam também as classes mais altas. Por isso, a festa desempenhou um papel importante para socialização cultural da comunidade na época. Vários outros bois existiram, mas Garantido e Caprichoso — antes chamado de Galante, permaneceram e são os grandes protagonistas da festa.

A data de nascimento dos dois é controversa, mas acredita-se que foi entre 1913 e 1926.

Até 1960 os dois bois brincavam de forma tradicional pelas ruas da cidade. Em 1965 foi criado o Festival de Parintins, apresentando os bois em uma grande arena. A criação do festival trouxe um espetáculo que se desenrola através da interpretação de mitos, lendas e histórias do estado. A cultura regional é resgatada através do diálogo entre o imaginário e o real, que valoriza os elementos nativos e mantém o confronto festivo entre os bois.

Em 1988 foi construído o “bumbódromo” com o formato de uma cabeça de boi. As arquibancadas são divididas ao meio com as cores azul e vermelho. E não pense que é só a arquibancada que divide as torcidas. O próprio Bumbódromo foi estrategicamente colocado no “meio” da cidade. Após o evento, o lugar se transforma em uma escola com 20 salas de aula e a arena vira quadras poliesportivas.

Quando acontece o Festival de Parintins?

O Festival de Parintins acontece durante três dias, sempre no último final de semana de junho. Cada boi tem 2h30 para contar sua história, que é narrada pelos puxadores de toadas. No total são 20 músicas para cada boi, encenadas com vários elementos cenográficos, que fazem da arena do Bumbódromo uma verdadeira caixa de Pandora. Personagens surgem voando sob o público, bonecos gigantes tomam forma e fogos de artifícios anunciam a chegada de algum item importante. Não dá para desgrudar os olhos da arena. Cada minuto é precioso. Cada minuto é um novo cenário e espetáculo.

Como chegar? 

Parintins está a cerca de 380k de Manaus (AM) e por fazer parte de um conjunto de ilhas chamado Tupinamabara, só existe dois modos para chegar: de avião ou barco. Há voos regulares saindo de Manaus e Santarém (Pará) que duram cerca de 1 hora. Durante o festival o número de voos aumentam.

O trajeto de barco é a opção de grande parte da população amazonense. O trajeto de Manaus até Parintins dura cerca de 8 horas, mas dependendo da correnteza do rio pode levar até 26 horas. Os barcos ficam ancorados na ilha durante o festival e você também a opção de escolher ficar dormindo nele, em redes.

parintins-7

Reserve com antecedência 

Seis meses antes do festival os pacotes já começam a ser vendidos. Você pode escolher ir por conta própria ou fechar com uma agência local que já inclui no pacote aéreo, hospedagem e ingresso. Se optar em ir por conta própria fique de olho no preço das passagem aéreas, que na época ficam caríssimas! Outro ponto importante são as hospedagens. Parintins é uma ilha muito pequena, com poucas opções de hospedagem. Para não ficar na rua, ou pagar muito caro, reserve com antecedência de pelo menos 6 meses, e isso não é exagero!

Clima

O clima no Amazonas é quente durante todo ano, com temperaturas que variam de 22°C a 35°C. A época de seca é de junho a outubro e as chuvas chegam em novembro e vão até maio.

O que levar no dia do Festival de Parintins

Se optar por uma das torcidas vista-se da cor do boi. Se não quiser torcer para nenhum boi vista-se com roupas de cores neutras, como verde, branco, amarelo… Pode parecer bobagem mas eles levam isso muito a sério e o boi perde pontos se na torcida tiver pessoas de cores não correspondentes.

  • Vá com um calçado confortável e leve uma capa de chuva, pode cair uma chuvinha e o Bumbódromo não é completamente coberto.
Foto: Chico Batata/Governo do Amazonas
Boibodrómo – Foto: Chico Batata/Governo do Amazonas

Maravilhosa festa no Festival de Parintins

O Garantido é conhecido como o “boi do povo”, por ser bem popular e manter o ritmo tradicional das músicas típicas. Sua cor é vermelha. O Caprichoso é o “boi da elite” com cenografias modernas e toadas mais rápidas. Sua cor é azul.

Entenda o Festival de Parintins

O primeiro a entrar na arena é o apresentador, em seguida o  levantador de toadas e a percussão, que no Garantido é chamada de batucada e no Caprichoso, marujada. Todos fazem parte dos itens que serão julgados pelos júris do festival.

festival
Batucada do Garantido
festival-1
Marujada do Caprichoso

Os personagens são basicamente relacionados às figuras míticas da brincadeira do boi. Em resumo, a história conta que Catirina estava grávida e um belo dia ficou com vontade de comer língua de boi. Francisco, marido da mulher e vaqueiro de confiança do patrão, angustiado com o pedido da esposa, mata o boi da fazenda para saciar o desejo de sua amada. O problema é que o boi era o preferido do rico fazendeiro, pois foi um presente de sua filha. O fazendeiro ameaçou Francisco com uma severa punição caso ele não conseguisse ressuscitar o boi. Um padre e um médico tentaram trazer à vida o pobre boi, mas fracassaram. O único que conseguiu ressuscitá-lo foi o pajé. Após ter voltado à vida, o patrão ficou tão feliz que deu uma grande festa e perdoou o casal. Essa é a história que eu sei. No entanto, são várias as versões que contam a história de Mãe Catirina e Pai Francisco, como também são chamados.

Na arena, esses dois personagens são figuras importantes para “colocar ordem na casa”. Eles arrumam alguma coisinha que saiu do lugar, animam a torcida e deixam tudo limpo para o espetáculo seguinte.

Os personagens individuais são trazidos em alegorias gigantes e acompanhados por toadas específicas. Os principais são o Boi, a Sinhazinha da Fazenda, o Pajé, a Cunhã Poranga (que significa moça bonita em tupi), a Rainha do Folclore e a Porta Estandarte. Um dos momentos mais esperados é o Ritual, momento dramatizado para receber o Pajé.

bois-paritins

Representação da figura feminina

Com o passar dos anos os valores em relação à mulher mudaram e influenciaram, também, as brincadeiras populares. Folguedos, até então, praticados apenas por homens abriram espaços para que as mulheres pudessem brincar.

A maioria dos personagens femininos da festa do boi nasceram a partir da década de 70. Muitos ainda questionavam a existência dessas figuras que não tinham qualquer relação com a tradição. Por isso, os nomes criados inicialmente duraram pouco e foram logo transformados por figuras que melhor retratassem a realidade da brincadeira. Rainha da Fazenda mudou para Sinhazinha da Fazenda; a Rainha da Pecuária para Rainha do Folclore; a Princesa da Fazenda para Cunhã-Poranga e Miss do Boi para Porta Estandarte. Ainda bem que mudaram esses nomes… Miss do boi, Rainha da pecuária… Convenhamos né?! Nada a ver! Fato é que, atualmente, essas figuras são aclamadas pelo público e complementam a festa.

A torcida que impulsiona o festival

O público faz um espetáculo à parte e, sem dúvida, embeleza ainda mais o festival. Cada torcida fica separada nas suas respectivas partes das arquibancadas e nunca se misturam. Por incrível que pareça, apenas 10% dos ingressos são vendidos, o restante é distribuído de graça para cada torcida. Mas não pense que é fácil pegar um lugar na arquibancada! Os torcedores chegam na madrugada e enfrentam uma fila gigante até a abertura do portão às 15h. Detalhe: A festa só começa às 20h.

Na hora da apresentação de cada boi, a torcida oponente permanece sentada, em silêncio, com as luzes da arquibancada apagadas. A “galera”, como também são chamados, fazem parte da festa e somam pontos para o boi. 

Torcida do Garantido
Torcida do Garantido

Brincadeira do povo

Tem um dito popular em Parintins que diz o seguinte: “ama-se um boi e admira-se o outro”. Pura verdade! Nós, como visitantes, que não vivemos o senso comum da região e tão pouco vivenciamos no nosso cotidiano os sentimentos enraizados das rixas do passado, mal sabemos a força de cada boi. As estórias dos bumbás contam as histórias dos amazonenses. Trazem à tona a própria essência desse povo da mata. As toadas dialogam intimamente com a galera, e o legado deixado pelos antepassados estão presentes no modo de bailar e nas vestimentas. Os cenários valorizam a cultura cabocla e indígena, que ligam o presente ao passado.

Para os olhares desatentos pode parecer sempre a mesma história. Mas se observar com atenção perceberá que cada boi tem sua particularidade. Cada qual traz consigo traços fortes que personificaram ao longo dos anos, criando identidades e trejeitos próprios.

É verdade dizer que o Festival Folclórico de Parintins recebe mais turistas estrangeiros do que brasileiros. Fato! Mas é mentira quando dizem que é uma festa “para gringo ver”. Não é! Todo o festejo é feito por e para os parintinenses, que são os verdadeiros protagonistas e telespectadores. São eles que esperam silenciosamente o boi oponente se apresentar, que enfrentam as longas filas para conseguir ver de perto seu boi de paixão, que vibram durante três horas sem parar. São eles que dançam por quase horas sem perder o compasso da coreografia, que vestem a mesma figura por mais de trinta anos — e brincam como se fosse a primeira vez. São eles, que se emocionam ao despedir do público na sua última apresentação como brincante. São eles que choram ao ver seu boi voar sob as torcidas. São 100 anos de Caprichoso e Garantido. O brinquedo de Parintins, boi de Lindolfo, boi de Raimundo, boi de Pedro, boi de Félix, boi de São João, boi de São João Batista, boi de Francisco, boi de Catirina, boi de quem quiser brincar.

foto-clovis-miranda
Boi Caprichoso em 1950 no Festival de Parintins | Foto retirada do site noamazonaseassim.com.br

Eu como brincante e admiradora dos folguedos populares, me senti honrada em participar de uma festa tão cheia de vida. Agradeço imensamente o convite da Amazonastur pela oportunidade de conhecer o Festival de Parintins.

Parintins-Garantido-13

Parintins-Garantido-9

Parintins-Garantido-3

Parintins-Garantido-20

Parintins-Garantido-9

parintins-caprichoso-1

parintins-caprichoso-9

parintins-caprichoso-15

parintins-caprichoso-21

parintins-caprichoso-24.;

parintins-caprichoso-24...

14 COMENTÁRIOS

  1. Me chamo Nayara e sou organizadora de eventos, fui contratada para ornamentar uma festa tematica com o tema do festival de parintins, e vieram mhitas duvidas: pq os acessorioa usados pelas rainhas e pelos outros participantes fo festival se vestem de indio? Ja que a origem do festival veio do nordestes… CRIS voce poderia me informar?

    • Olá Nayara, eu fui na festa como turista e não sei te informar sobre esses detalhes mais técnicos. Sugiro entrar em contato com o pessoal da Secretária de Turismo do Amazonas ou até mesmo com os próprios organizadores de cada boi.
      Grande abraço!

    • Oi Nayara, sou de Parintins e posso te explicar um pouco…. O boi-bumbá tem as características do bumba-meu-boi do Maranhão, vindo pra cá com os nordestinos que fincaram raízes no Amazonas. Chegando aqui, eles se depararam com uma cultura totalmente diferente com a qual eles estavam acostumados. As lendas indígenas se misturaram aos contos nordestinos e assim nasceu o boi-bumbá. Por isso há uma forte influência indígena.
      A propósito, os bois “nasceram” a partir de uma promessa feita a São João!
      Minha resposta veio um pouco atrasada, mas de qualquer forma te convido para vir pessoalmente prestigiar essa festa que é linda!

  2. Oi Cris, adorei o post muito esclarecedor e inspirador, quero muito ir no festival esse ano, mas nunca fui pra Amazônia , vc pode me dar umas dicas de como ir para o festival, após eu chegar em Manaus. Obrigado 😀

    • Olá Fernando, de Manaus você precisa ir para Parintins, onde acontece o festival. Recomendo comprar com antecedência porque os ingressos esgotam muito rápido.
      Grande abraço!

  3. Carlos Alberto F. Brandão
    4 de Março de 2014
    Olá, redatores!

    Sou de Minas Gerais. Região norte mineira, cidade de São Francisco, às margens do grandioso rio que corta cinco estados.

    Em nossa cidade, cultua-se o BOI DE REIS, numa tradicional disputa entre moradores de bairros distintos que ainda fazem preservar o aspecto cultural folclórico.

    Dentre estes, está o Boi de Messias, Boi da Aparecida, Boi do Santo Antônio e Boi do Sagrada Família.

    Tenho a pretensão de fazer um grande evento na cidade envolvendo estes participantes num folguedo grandioso como o Festival de Parintins, com toda sua pompa e festejos tradicionais.

    Gostaria de melhores informações sobre como construir bois com as características destes daí de Parintins e, ou se é possível aproveitar os materiais utilizados e, ainda, se os organizadores fazem doações destes materiais.

    Mais uma vez, registrando, gostaria de realizar aqui em São Francisco-MG a festa dos bois Garantido e Caprichoso, num misto de admiração e perpetuação da cultura nacional.

    Em agradecimentos,

    Carlos Alberto F. Brandão
    Professor de Literatura e Língua Portuguesa

    • Olá Carlos, sou uma admiradora da cultura popular e das brincadeiras regionais. Fiquei muito interessada em conhecer a festa do Boi de Reis em São Francisco. Qual é a data?

      Sobre a confecção de bois e produção do Festival de Paritins não sei te informar, pois fui mera espectadora do festival. Sugiro que entre em contato diretamente com a organização dos bois Garantido e Caprichoso para maiores esclarecimentos. Te deixo o contato do Caprichoso: (92) 3533-4676. Tentei achar o número da organização do Garantido, mas não consegui.

      Grande abraço!

    • Olá Nayara, você quer indicação de duas festas folclóricas no Brasil? Tem as festas de Bumba-meu-boi, Festa Junina, Marujada, Carimbó, Cavalo-Marinho…. São várias!

  4. Que lindo, Cris! Tenho um sonho antigo de visitar essa festa, e acho que seu post foi um dos melhores que já achei sobre ( e não só pelas fotos, que estão lindas, mas pelo conteúdo… Você se preocupa em contar a história direitinho e, por isso mesmo, eu gosto… Sabe como é, eu preciso viajar junto!) 🙂

    Mas olha, parabéns pelo convite e pela experiência! É daquelas que a gente volta agradecendo pelo privilégio de poder conhecer de perto, né?

    beijos, Cla

    • Oi Clarissa, que bom que gostou! Realmente é um daqueles convites que a pessoa fica agradecendo 30 vezes. Agora, quero voltar como brincante. rsrs Foi engraçado, porque antes de escrever fiquei pensando “como” explicar tudo sem alongar demais o texto. É muito detalhe e história para contar. Mas tá aí um pouco da minha contribuição sobre o festival. Recomendo!!! Vc vai gostar! 😉 Bjooos

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.